Indo a Gand em missão de família

Para quem acompanha o blog, lembrará  deste post Indo à Diest em missão de família,  onde conto a história de nosso bisavô Louis Cruls, belga, astrônomo,  e seu trabalho na Comissão Exploradora do Planalto Central em 1892, chefiando um grupo de 21 pessoas entre pesquisadores e de apoio com 9,6 toneladas de equipamentos, a Missão Cruls, aqui. No site do astrônomo Ronaldo Mourão aqui, há vários posts, é só clicar em Missão Cruls: Fotos, Comissão Exploradora do Planalto Central (1892-1893), Diretor do Imperial Observatório, Louis Ferdinand Cruls e outros.

Nesta viagem à Paris em 2006, Bia e eu fomos à Bélgica e chegamos à  casa onde nasceu nosso bisavô Louis Cruls, em Diest,  e onde estava instalada a placa em homenagem a ele, e onde trabalhou o grupo Missão Cruls, criado para preparar o centenário da Missão Cruls. Conto tudo tim tim por tim tim neste post aqui:  a preservação da memória da família por minha mãe e minhas buscas na internet por parentes Cruls do ramo europeu. Meu irmão se debruça há alguns anos na árvore genealógica Cruls, desde os ancestrais em 1700.

Em passado recente, pelo Facebook, eis que acho 2 parentes Cruls, em Gand. O que a internet faz por você 😉  Comecei a fazer contato com a Gill, e aproveitando esta viagem à Paris, decidi encontrá-la, e marcamos um café, em casa dela.

Na 4a. feira, fui à Gare du Nord, comprar os bilhetes do Thalys, trem de alta velocidade para Bruxelas, para o dia seguinte.

Não há a menor dificuldade em chegar à Gare du Nord, em Paris, de metrô, ônibus ou taxi.

Indo de taxi:

Indo de metrô:

Para fazer seu roteiro de metrô, este é o link da Rapt aqui . É só colocar seu endereço de ida e chegada e o site faz o itinerário para você.

A Gare du Nord é  uma bela construção, vi algumas estudantes, provavelmente de arquitetura,  sentadas no chão com prancheta de desenho.

No dia seguinte, 5a. feira cedo já estava na Gare du Nord, na plataforma do Thalys esperando o trem com destino à Bruxelas. É preciso chegar com antecedência, pois não só a estação é grande e a mais movimentada da Europa, como o trem sai na hora marcada e não espera por você 😉  Ainda deu tempo para comer um pain au chocolat 🙂 Também é preciso estar atenta, pois podem mudar a plataforma que consta no bilhete, como foi o meu caso. Comprei assento para 2a. classe que é super confortável.

O Thalys, trem de alta velocidade, leva 1:22h  de Paris até a Gare Midi, estação em Bruxelas.

Na própria Gare Midi iria comprar o bilhete de trem regional para Gand.

Já acomodada em meu assento, o trem partiu exatamente no horário.

A Gare Midi, em Bruxelas é grande, mas muito bem sinalizada. Há também alguns balcões de informação, caso haja dúvidas. Entrei em fila razoável e comprei os bilhetes de ida e volta para Gand por 8,20 euros, cada,  e fui para a plataforma de embarque.

Estava muuuito frio, com vento e chuva fina, a sensação térmica era de mais frio, bem mais do que em Paris.

Chegando em Gand, o bicicletário na estação :mrgreen:

Peguei um taxi para encontrar a Gill, no endereço indicado.

Pela foto acima, deu pra perceber que bicicletas são o meio de transporte mais utilizado.

Finalmente chego no endereço, toco a campainha e abre a porta com um largo sorriso, a Gill Cruls, nos abraçamos quase sem acreditar.

Brindamos nosso encontro com champagne e conversamos por um bom par de horas, trocando dados da família.

Hora de voltar e pegar o trem de Gand para Bruxelas e, lá o Thalys para Paris. Chamei o mesmo taxi que me trouxe, e a prima Gill me acompanhou até a estação depois de uma tarde de fortes emoções que compõem o mosaico da vida.

Forte e emocionado abraço de despedida, e lá fui eu para a plataforma do trem de Gand para Bruxelas.  Estava gelaaaado.

Trem chegou no horário certinho, entramos no quentinho, em meia hora estávamos em Bruxelas,  na Gare Midi. Corri para plataforma do Thalys, entrei no vagão, e lá voltamos para Paris, quando cheguei já estava escuro.

Na Gare du Nord, peguei o metrô para o Marais, facinho.

Bem, finalmente,  fizemos a ponte Cruls,  Brasil  –  Europa 😉

A série de  posts desta viagem:

Marais chez moi

Poîlane, tradição perpetuada na família

Caminhando e me emocionando

Carroussel do Louvre e Mariage Frères

Jacques Génin, impecável

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Indo à Diest em missão de família

Continuando a série de posts da viagem à Paris em que o último post é este, marcamos viagem pelo Thalys à Bruxelas, de onde iríamos à Diest. A razão desta viagem começou muitos anos atrás.

Durante minha infância e adolescência, ouvia minha mãe contar histórias sobre a família, ela era a memória. Sabia de cor o parentesco e as histórias de cada um e arquivava fotos antigas, recortes de revistas e jornais  sobre diversas pessoas que de uma maneira ou de outra contribuíram em uma época para a história, tanto do lado dela,  como da família de meu pai. Ela tinha tanta preocupação com a preservação da memória, que por dois anos pesquisou e se deu ao trabalho de fazer a árvore genealógica da família  Souza Dantas, com pesquisa desde antepassados de Portugal, e ainda na era da máquina de escrever  compilou os dados, e distribuiu o trabalho pela família  toda.

Quem conheceu D. Alice sabe que ela era um papo pra lá de agradável. Era uma delícia ouví-la contar as histórias pitorescas que não estão nos livros, dos diversos personagens de uma era. De vez em quando, ela era procurada por pessoas ligadas à  museus que eram encaminhadas por outros membros da família  para tirar dúvidas ou obter informações sobre a genealogia das famílias.  E ela tinha grande admiração por Louis Cruls, avô materno de meu pai, também Luiz,  por todo seu trabalho desenvolvido para realizar a expedição da Comissão Exploradora do Planalto Central,  com as dificuldades de acesso à região central do Brasil, a pedido de Floriano Peixoto,  para definir a melhor região para estabelecer a capital do país.

Pessoal da Comissão – Louis  Cruls, J. Lacaille, H. Morize, Tasso Fragoso, A. Pimentel, E. Chartier e outros.

Em 1892, um grupo de 21 pessoas entre pesquisadores e pessoas de apoio,  partiu de trem do Rio para Uberaba com equipamentos em 206 caixas pesando 9,6 toneladas,  e dali em diante em lombo de burro. Compunham a expedição astrônomos, botânicos, geólogo, médico.  Por 10 meses a expedição percorreu mais de 4000 quilômetros e definiu o quadrilátero Cruls em área de 14.400 km2, onde hoje está Brasília.  Como não havia mapa da região central do Brasil, Cruls passou a orientar-se  pelas estrelas que conhecia tão bem. Realizaram estudos científicos do clima da região, flora, fauna, cursos d´água, topografia, produzindo o 1o Relatório de Impacto Ambiental (Rima) da história.

Se tiver interesse leia o que diz o astrônomo Ronaldo Mourão ou aqui ou aqui.

Acampamento às margens do Rio Paranahyba. Longe do conforto de casas.

Vista de Goyaz

Salto de Itiquira

Em nossa sala de visitas em Ipanema,  um volume encadernado do  Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central tinha um lugar de destaque. Agora está com meu irmão em Sampa.  Algumas vêzes, esteve lá em casa o Sr. Back,  amigo argentino de meu pai,  em busca de informações sobre  Luiz Cruls e sempre trazia jornais de Diest, a cidade onde nasceu, com informações a seu respeito ou notícia de alguma homenagem ao seu trabalho, em flamengo bien sûr, e  que  continuam guardadinhos. Ele contava a meus pais como Louis F. Cruls era admirado na Bélgica como um homem da ciência, enquanto no Brasil era  pouco conhecido e reconhecido.

Depois que  minha mãe faleceu, o que aconteceu de repente  enquanto dormia, taí uma coisa complicada, pois num dia você está ali conversando com a pessoa  e no dia seguinte sem aviso prévio,  este convívio  é interrompido.  Sua morte súbita foi muita sentida entre  parentes e amigos de todas as faixas etárias, pois ela era muito querida mesmo.

Dali em diante, procurei dar continuidade à preservação desta documentação, estudando o material que ela tinha guardado ao longo de tantos anos.

Comecei a pesquisar sobre a família Cruls nos primórdios da internet, usando ferramentas  de  buscas.  Com isto, achei  endereços de parentes Cruls espalhados em várias cidades da Bélgica, principalmente St. Truiden, Diest e Bruxelas, na Bélgica, alguns nomes em Paris e uns 2 ou 3 nos Estados Unidos.

Fiz contatos por e-mail com a Embaixada da Bélgica em Brasília e obtive o endereço onde está a placa  em homenagem a Louis Cruls, Overstraat, 9, em Diest, afixada na casa onde ele nasceu.  Para o centenário da Missão Cruls foi criado um grupo de trabalho ” Cruls “,  em Bejinhof na Kerkstraat, 18. A responsável era a Sra. Debouette. Consegui o mapa de localização dessa placa quando ainda não havia google map 😉  E eu ia imprimindo tudo. Cada vez mais me atraia a idéia de buscar nossas raizes e ir à cidade onde nosso bisavô  nasceu. E com a viagem à  Paris em 2006,  a ida à Diest era certa. Fui munida de documentos, textos, jornais de Diest e fotos de nosso bisavô que meu irmão enviou-me de São Paulo, enfim o que tinha relacionado a ele.

Agora, voltando à viagem. Na 5a. feira de manhã, pegamos o metrô até a Gare Montparnasse de onde sai o Thalys para Bruxelas e nos deixa na GareMidi, bem central. Fizemos uma malinha pequena para passarmos uma noite em Bruxelas. A viagem de Paris a Bruxelas é rapidíssima,  só 1h25min.  Ainda de manhã, chegamos em Bruxelas e em frente à GareMidi, tomamos um taxi para deixar nossa maleta no hotel. Começamos a bater papo com o motorista, um africano altíssimo, o Bonaventure. Comentamos que iríamos à Diest, eu lá abraçada com minha pasta  com mapas e documentos, e expliquei que procurávamos a casa onde nasceu nosso bisavô e a placa em sua homenagem. Paramos em frente a um hotel, visitamos um quarto e não gostamos nadinha. A essa altura, indaguei como quem não quer nada, quanto seria a ida à Diest e fechamos com o Bonaventure na hora. Foi a melhor coisa. O carro dele era confortabilíssimo, uma camionete Hiunday. Com isto fomos rapidinho até à cidade com o endereço da casa no GPS, Overstraat, 9. Chegamos até a porta da casa. Um detalhe, as casas não têm muro, você bate direto na porta da casa. Só que a moça que me atendeu disse que não era lá, era a Overstraat no centro da cidade e lá fomos nós. O GPS não distingue 2 endereços iguais  😉  Paramos em outro ponto com o mapa na mão e sem conseguir achar, Bonaventure chegou perto de um rapazinho para pedir ajuda, a referência era Cruls. O que o rapaz fez ? Entrou no carro e pediu que o seguíssemos, nos deixou na parte antiga da cidade e disse que procurássemos uma senhora dona de um restaurante, cujo marido tinha escrito um livro sobre Cruls. Achei essa atitude do rapaz, absolutamente fantástica, parar o que estava fazendo para nos conduzir 😉 A cidade era essa gracinha que vocês  vêm na foto.

Entra-se por aquele arco e ali está uma noiva.

Esta igreja

é de 1300.

Assim nos contou uma senhora que estava na igreja e disse ainda que naquela época era uma ordem de freiras e só mulheres podiam freqüentá-la.

A cidade é tão gracinha, tão calma, sem engarrafamentos, stress zero que dá vontade de pegar suas coisas  e ir morar lá 😉

Quando chegamos ao restaurante a senhora Zelem nos atendeu atenciosamente com uma gataria a seus pés. Quando  expliquei do que se tratava  ela abriu um sorriso e foi buscar um livro que seu pai havia escrito sobre Louis F. Cruls.

O pai dela já havia falecido, e ela nos informou também que a coordenadora do grupo de trabalho Missão Cruls havia falecido um ano antes de câncer, e a casa onde ele nasceu estava fechada, mas a placa estava lá.

Como estávamos morrendo de fome, pedimos croques monsieurs (queijo quente)  com salada que foram os mais deliciosos que comemos na vida, nham

Bonaventure, o motorista africano que ajudou a materializar nossa missão.

Com explicações da Sra. Zelem fomos buscar a casa e a placa.

Chegamos na Overstraat, 9. A casa onde nosso bisavô nasceu.

A placa em homenagem a ele, em flamengo. Mas, dá para entender o sentido do texto.

Dali, votamos para Bruxelas.

E fomos para a Grand Place.

Belíssima.

Era feriado, data de comemoração da coroação do rei.

Parei um minutinho numa loja de gobelins lindos e dali fomos para a gare Midi, onde Bonaventure nos deixou e encerrou seus serviços  😉   Remarcamos o bilhete do trem sem nenhuma dificuldade, e voltamos para Paris às 17:30h. O trem saiu no horário direitinho, só atrasou na chegada porque houve problema com trem na frente do nosso, e ficamos parados algum tempo no meio do nada. Chegando em Paris, tomamos o metrô e descemos na estação Vavin. As 10:45 já estávamos no hotel com missão cumprida ! 😆 😆

Louis Ferdinand Cruls nasceu em Diest, Bélgica, em 21 de janeiro de 1848, formou-se pela Universidade de Gand, e com 26 anos veio para o Brasil, onde casou-se e constituiu família. Amou nosso país, onde trabalhou e viveu até pouco antes de morrer em 21 de junho de 1908, em Paris com pouco mais de 60 anos de idade,  para onde foi tratar problemas de saúde.

À bordo do navio que o levava para a Europa, todas as noites costumava contemplar demoradamente no tombadilho o céu meridional que ia aos poucos desaparecendo, substituído cada dia mais pelas constelações do setentrião. O Cruzeiro do Sul cada noite se apresentava mais baixo o que Cruls fazia questão de assinalar à sua esposa com emoção, como se tratasse do próprio Brasil que ficava mais distante. Até que certa noite em que Cruls tinha se demorado no tombadilho até mais tarde, ele entra no camarote e diz à sua esposa pálido e emocionado:  “Está tudo acabado”. Era o Cruzeiro do Sul que afinal mergulhava definitivamente horizonte e não seria mais visto, como não foi por aqueles olhos sonhadores de quem amou tanto a terra do Brasil ” (parte de texto encontrado em seus pertences, elaborado por autor desconhecido)

Trabalhou de forma honrada e o único bem que deixou foi a casa onde morou em Laranjeiras.

A serie de posts da viagem de 12 dias a Paris que incluiu a ida a Diest:

13 dias flanando em Paris com uma chegadinha a Diest

2a. feira indo ao Marais e a Place des Vosges

Conhecendo Annick Goutal, agradecendo a N.S. da Medalha Milagrosa e dando uma passadinha na Grande Epicerie de Paris

Revisitando o Museu d’Orsay

Recebendo Renata

Indo a Diest em missao de familia

No domingo, visitando o Museu Marmottan, indo a Piramide do Louvre e fechando no Laduree